Pokémon têm gêneros, isso já é intrínseco a franquia. E há diferenças visuais entre Pokémon da mesma espécie e de gênero diferentes. Essa mecânica foi introduzida na segunda geração da franquia, nos jogos de Game Boy Color: Pokémon Gold & Silver, para também introduzir o breeding – ou cruzamento – na lore de Pokémon, dando chance aos treinadores de chocarem ovos de Pokémon que quisessem.

Essa técnica é, inclusive, umas das principais usadas para garantir Pokémon brilhantes – os conhecidos shiny – ou mesmo Pokémon com boas estatísticas IVs para competitivo. Mas, além disso, essa foi a introdução do mundo Pokémon ao conceito de gênero. Hoje ainda há Pokémon também sem gênero definido, ou gênero-desconhecido como tratado nos jogos, e mais sutilmente, em um único título até o momento, também foi introduzida a ideia de homossexualidade nesse famoso mundo de monstrinhos.

Bom, já sabendo da mecânica de gêneros trazida ao mundo Pokémon ainda em 1999, há toda uma gama de outras mecânicas e funções que giram em torno dessa funcionalidade. Uma dessas mecânicas são ataques específicos de gênero. Attract é, segundo a Bulbapedia, um ataque do tipo Normal, que não dá dano e no qual o “alvo se apaixona pelo usuário se ele tiver sexo oposto. Attract funciona independentemente do tipo de imunidade. Ao contrário da maioria dos movimentos de status, o Attract é capaz de ignorar um substituto.”

Além disso, temos também a habilidade Cute Charm, introduzida na terceira geração, e que é ativada quando o Pokémon que possui a habilidade é “atingido por um movimento de contato de um Pokémon do sexo oposto“, e se isso ocorrer “há 30% de chance de o Pokémon atacante se apaixonar. Se um dos Pokémon for de gênero desconhecido (como Magnemite), esta habilidade não será ativada.” Ou seja, ambos são um ataque e uma habilidade específicas que só atingem um Pokémon se ele for do gênero oposto do Pokémon que o utilizar. E isso em todos os jogos da franquia. Exceto um.

Pokémon Mystery Dungeon: Rescue Team DX.

O jogo de Nintendo Switch lançado em 2020 subverte esse ataque exclusivo de gênero da franquia. E isso desde os originais lançados 15 anos antes para o Game Boy Advance: Pokémon Mystery Dungeon: Blue Rescue Team e Pokémon Mystery Dungeon: Red Rescue Team. Nesses jogos você é um ser humano transformado em Pokémon e se junta a um novo amigo para se tornarem o time de resgate oficial da vila Pokémon em que vivem. Você escolhe seu Pokémon a partir de respostas específicas a diferentes perguntas no começo do jogo (tá, você também pode escolher manualmente se quiser, mas assim é mais divertido) e escolhe o gênero de seu monstrinho, podendo ser um menino ou uma menina. E isso fica evidente em Pokémon que têm diferenças de gênero como o Pikachu – isso é mais evidente no remake, já que nos originais não há diferenças na apresentação dos Pokémon, mas seu personagem ainda pode ser escolhido entre um menino ou uma menina.

E se, por exemplo, você se transformar em um Skitty, poderá durante sua evolução de níveis no jogo aprender o movimento Attract, além de ter a habilidade Cute Charm – ambos explicados acima. E é aí que está o pulo do gato! Tanto Attract, quanto Cute Charm, nesse jogo, funcionam para qualquer oponente, independente do gênero do Pokémon que você está combatendo. O Nidoran Macho, por exemplo, – um Pokémon que é sempre macho – foi eficazmente atingindo pelo Attract do meu Skitty também macho.

Nos originais, no entanto, só é possível se tornar um Skitty se você optar por jogar como uma menina, mas mesmo assim sua habilidade de Cute Charm também pode atingir Pokémon que são sempre fêmeas, como os Nidoran Fêmea.

Embora possa parecer um passo ousado afirmar que Pokémon Mystery Dungeon: Rescue Team DX talvez seja a estreia da representação LGBTQ+ na franquia Pokémon, é no mínimo intrigante e curioso observar que, diferentemente de outros jogos, onde os gêneros costumam afetar diretamente a eficácia deste ataque e desta habilidade, neste título em particular, essa dinâmica não se aplica. No mundo real, a sexualidade fluida e a homossexualidade são fenômenos observados em mais de 500 espécies animais, com comportamentos homossexuais amplamente documentados na biologia. Portanto, não seria surpreendente que essas representações da diversidade sexual também ocorressem naturalmente no mundo Pokémon.

Em certo sentido, é como se estivéssemos presenciando uma introdução quase canônica da bissexualidade/homossexualidade no mundo dos monstrinhos de bolso, mesmo que essa questão seja abordada de forma sutil, e praticamente como o conhecido ‘botão gay‘ – aquela trope ou recurso comum de jogos que possuem relacionamento entre personagens em que todos são, de certa forma, bissexuais por padrão e a relação homossexual só se desenvolve se o jogador assim escolher.

Proposital ou não, forçado ou não, mais evidente ou mais sutil, é pelo menos gratificante ver essa representação, pois destaca a diversidade em um contexto que, de certa forma, ecoa a realidade, mesmo que de maneira discreta.

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